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As novas pistolas do exército frequentemente ejetam munição não percutida e não funcionam bem com munição comum.

Um relatório do Pentágono revela que as armas continuam a apresentar trancamentos durante a ejeção e outros defeitos, depois de terem vencido uma competição controversa.

Artigo de joseph Trevithick extraído da edição de 29/01/2018 do site THE WARZONE

A decisão do Exército dos EUA de escolher duas versões da pistola 9 mm P320 da SIG SAUER como as novas armas padrão para serviço, não aconteceu sem controvérsia, incluindo um protesto formal da concorrente GLOCK que reclamou que no processo de avaliação não foram realizados determinados testes críticos. O Pentágono recentemente divulgou um relatório mostrando que o teste das pistolas M17 e M18 apontou uma série de deficiências significativas e recorrentes, as quais incluem disparo acidental em caso de queda da arma, ejeção de tiro não percutido e baixa confiabilidade, quando é usada munição tradicional, aquela com o projétil envolto por jaqueta metálica.

Estes e outros detalhes constaram da análise desses trabalhos no ano fiscal de 2017, do Diretor do Escritório do Pentágono de Avaliação e Testes Operacionais, a qual foi publicada no início de janeiro de 2018. Este relatório periódico abrange uma grande variedade de sistemas de armas de alto perfil e outros equipamentos importantes em todo o Exército dos EUA, incluindo o programa do Sistema de Armamento Portátil Modular do Exército (MHS). Em janeiro de 2017, o Exército escolheu a SIG SAUER para fornecer um total de mais de 300 mil pistolas M17 de tamanho normal e compactas M18 como parte do projeto, um negócio no valor de aproximadamente US$ 580 milhões. As outras Forças dos EUA pensam em seguir o exemplo e adotar as armas e a empresa está disponibilizando basicamente a mesma arma também para os atiradores civis.

De acordo com o Diretor de Avaliação e Testes Operacionais, as armas apresentaram uma série de problemas nos testes realizados entre abril e setembro de 2017, período abrangido pelo relatório. O primeiro dos problemas apresentados foi o fato publicamente conhecido de que a pistola poderia disparar caso o usuário a deixasse cair acidentalmente. Desnecessário dizer que um tiro acidental é perigoso, tanto para o atirador como para quem está próximo.

O Exército constatou o problema durante o "teste de verificação de produtos" inicial, mas não está claro quando a Força se conscientizou do problema. A SIG SAUER fez, posteriormente, alterações não especificadas para resolver este problema nas pistolas M17 e M18.

Membros do Terceiro Regimento de Cavalaria do exército norte-americano treinam com as suas M-17 em janeiro de 2018

Vale ressaltar que, em agosto de 2017, a SIG SAUER emitiu um recall voluntário para outras pistolas P320 devido ao mesmo problema, mas insinuou em seu comunicado à imprensa que os atiradores haviam utilizado as armas de forma excessiva "além dos padrões de segurança dos EUA". O comunicado também enfatizou que as novas armas do Exército não precisariam de peças de reposição, mas evitou mencionar que isso era porque elas já foram fornecidas com as peças de reposição, deixando aberta a interpretação de que, antes de tudo, elas nunca precisariam de atualização.

Demonstrando mais preocupação, o escritório de testes principais do Pentágono disse que durante a realização de testes adicionais, o conjunto do gatilho de duas pistolas tinha rachado, evidenciando um problema totalmente novo. A partir de setembro de 2017, a recomendação era "trabalhar com o fornecedor para identificar e eliminar a causa da variabilidade na fabricação do conjunto do mecanismo de gatilho". Testes também revelaram que as pistolas tinham uma propensão para ejetar munição não percutida junto com o estojo vazio durante o funcionamento normal. Não havia nenhuma indicação de que este problema causasse avarias, como falha de extração (“stove-piping”), o que geralmente resulta no cartucho vazio preso,  na saída pela janela de ejeção.

 O vídeo abaixo mostra uma falha de ejeção em uma pistola GLOCK e um modo de eliminar o trancamento.

 

A perda de munição no uso rotineiro ainda é um problema significativo para os atiradores, o que implica a possibilidade de ficar sem munição inesperadamente ou, simplesmente, desperdiçar recursos. O Escritório do Diretor de Teste Operacional e Avaliação disse que o problema tornou-se mais claro na medida em que mais tiros eram dados pelos avaliadores com suas pistolas M17 e M18. Em setembro de 2017, o Exército ainda estava trabalhando com a SIG SAUER para identificar a causa do problema, em busca de outra solução. No entanto, essa não era a única questão relacionada com munições. Nos testes, as pistolas M17 e  M18 funcionaram bem com o novo cartucho XM1153 “de emprego especial”, com projétil ponta oca. Eles não funcionaram de forma confiável, porém, com a munição padrão, a XM1152, com projétil encapado por uma jaqueta de cobre.

EXÉRCITO AMERICANO

Carregadores da pistola M17 com a munição XM1153 ponta oca, durante um teste.

 

O Exército estabelecera um requisito para que as novas pistolas pudessem disparar 2.000 tiros, sem parar, sem incidente de tiro em uma média de pelo menos 95% do tempo. O Exército definiu incidente de tiro como qualquer instância que levasse as armas a parar de funcionar normalmente, onde o usuário conseguisse que a arma voltasse a funcionar novamente sem a necessidade de ferramentas ou peças de reposição. Com a munição XM1153 projétil ponta oca, a pistola M17 atingiu 95% de confiabilidade, enquanto o M18 conseguiu um pouco melhor: 96%. Mas quando as armas foram alimentadas com munição XM1152, os resultados foram sombrios. A pistola tamanho normal apresentou uma probabilidade de 75% de funcionamento correto, enquanto a versão compacta mal superou os 60%.

O relatório não diz por que isso pode ter ocorrido e não ficou claro o que o Exército estava fazendo para corrigir o problema. Os problemas apareceram durante os Testes de Verificação do Produto e o Órgão simplesmente optou por realizar testes e avaliações operacionais somente com o cartucho de emprego especial. Isso, por sua vez, sugere que as tropas que forem dotadas com as pistolas receberão munição projétil ponta oca como munição padrão, uma mudança significativa da doutrina precedente.

O fato de haver somente um tipo de munição disponível - sem contar munição de manejo e festim para treinamento - poderia limitar a utilidade das novas pistolas. Tradicionalmente, projeteis ponta oca depois de atingir seus alvos começam a se expandir, geralmente criando ferimentos mais graves, porém reduzindo sua capacidade de penetrar anteparos, como pára-brisas e portas de carro. Embora o design moderno do projétil ponta oca tenha aumentado muito sua versatilidade e letalidade, tornando-o menos limitado e muito mais letal do que era, munições de pistola geralmente não são adequadas para perfurar coletes a prova de bala ou escudos.

Há também uma possível questão de direito internacional. A Convenção de Haia de 1899, um acordo que os Estados Unidos respeitam, proíbe todo projétil cujas características o levem a expandir-se deliberadamente no emprego em combate. As Forças Armadas dos EUA disseram anteriormente que os projéteis do tipo ponta aberta para melhora da precisão não estão sujeitos às restrições, porque a expansão não é o objetivo principal do projeto, mas tem em geral limitado a questão da munição real ponta oca às armas de seu policiamento interno. Também criaram o argumento de que essas munições são legais para o uso em combate quando há uma "necessidade militar clara". Algumas forças de operações especiais já produzem, com essa justificativa em mente, munição de pistola ponta oca para missões de combate específicas.

O Exército começou a distribuir as primeiras Pst M17s e M18s para as suas unidades em novembro de 2017, incluindo membros de sua recém inaugurada primeira unidade de assessoria, a 1ª Brigada de Assistência de Força de Segurança, que se dirigirá para o Afeganistão em breve. O Exército também espera distribuir as pistolas para mais soldados no total do que tinha feito com armas de backup no passado.

EXÉRCITO AMERICANO

Um membro da 1ª Brigada de Assistência de Força de Segurança do Exército dos EUA treinando com uma M17 em janeiro de 2018.

Sem munição normal, essas tropas e outros militares dotados com as novas pistolas terão que ficar com a munição com projétil ponta oca por certo tempo. Isso, por sua vez, poderia provocar objeções por parte de grupos humanitários e outras organizações, prejudicando potencialmente o serviço em ações legais prolongadas.

Em conjunto, essas questões também ressaltam as queixas de que a GLOCK, outra competidora do contrato da MHS, determinou as métricas de teste do Exército e a decisão de escolher a Sig Sauer. Em fevereiro de 2017, o fabricante de armas austríaco apresentou um protesto formal, mas focado em termos específicos de contrato que permitiram uma competição extra entre armas múltiplas. O GOVERNMENT ACCOUNTABILITY OFFICE (GAO) (Escritório Governamental de Responsabilidades) rejeitou o argumento, afirmando que não havia nada que impedisse o Exército de ignorar essa avaliação adicional e prosseguir diretamente para escolher um vencedor.

Esta é a versão de entrada da GLOCK na licitação da MHS. Observe a segurança manual de fábrica, uma característica que não é comumente encontrada nas GLOCK (alguns pedidos da polícia incluiram um dispositivo de segurança mecânico de fábrica, bem como uma série de protótipos), embora o dispositivo denominado Cominolli Safety, muito semelhante ao mostrado, seja uma modificação relativamente popular no mercado de reposição. Uma versão de entrada da GLOCK na MHS será apresentada ao público. Chamada de GLOCK 19X, possui armação da GLOCK 17 e o layout compacto do ferrolho e do cano da GLOCK 19, entre outras características.

Mas depois de perder essa reclamação, a GLOCK apelou abertamente ao Exército sugerindo que este havia encurtado o teste de desenvolvimento, decidindo especificamente não executar os "testes de resistência pesada", pedindo à Força que finalizasse os experimentos, mesmo antes de dar prosseguimento aos procedimentos de compra das pistolas SIG SAUER. A GLOCK registrou que o GAO havia confirmado que sua arma já havia mostrado mais confiabilidade do que a P320.

Os novos dados do Escritório do Diretor de Teste Operacional e Avaliação pareceriam reforçar a afirmação da GLOCK de que mais testes poderiam ter sido benéficos, pelo menos quanto à exposição dos problemas de funcionalidade básica com a munição de projétil padrão. A decisão do Exército de abandonar efetivamente esse tipo de munição temporariamente não é certamente uma solução de longo prazo.

 EXÉRCITO AMERICANO

Um Guarda Nacional do Exército dos EUA atira com uma pistola GLOCK durante uma competição.

As descobertas poderiam abrir espaço para novas ações legais, mesmo que a SIG SAUER já tenha efetuado correções subsequentes ou, pelo menos, reativar a controvérsia sobre a decisão de selecionar a pistola P320. Isso pode levar a Força Aérea e Marinha dos Estados Unidos a reconsiderar seus planos de seguir o Exército, adotando as pistolas M17 e M18 no intuito de padronizar munições e peças sobressalentes.

As poucas unidades do Exército que ainda estão usando as Pst M9 Berettas mais antigas, provavelmente acabariam por receber  os modelos M17 ou M18 também pelo mesmo motivo. As pistolas GLOCK já são populares em forças  especiais dos EUA, tais como nas Forças Especiais do Exército e nos SEALs da Marinha. O Corpo de Fuzileiros Navais começou a adquirir um número limitado delas para equipar pessoal selecionado, o que poderia abrir a possibilidade para compras maiores.

Qualquer plano futuro de qualquer dessas partes para comprar as novas pistolas MHS pode depender fortemente da capacidade do Exército de trabalhar com a SIG SAUER para mitigar completamente os vários problemas existentes.

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